Danganronpa 3 não faz sentido

Danganronpa é uma série especial para mim. Como fã de visual novels e de séries como Ace Attorney e Zero Escape, uma mistura desses dois é algo tão atraente e divertido como soa. Como um estilo definido pelos criadores de Psycho Pop, o jogo criou uma identidade visual própria ao misturar uma estética sombria e pesada com traços vibrantes e coloridos de animes. Seu gameplay também é extremamente variado, pegando de vários gêneros e montando um Frankenstein que consegue ser harmônico e amigável para qualquer jogador. Dito isso, a série realmente se destaca no seu enredo e na construção dos seus personagens, além de trabalhar bem a sua temática e transmitir uma mensagem impactante para o jogador. O que parecia ser uma história simples e contida no primeiro, na verdade se transformou em uma grande saga que teve suas peças sendo montadas aos poucos para desvendar os grandes mistérios da série, que eram propositalmente deixados de lado; e assim criando uma certa misticidade.

Eis que surge Danganronpa 3, um projeto ambicioso de duas séries em anime com o propósito de concluir a história dos personagens dos dois primeiros jogos e preencher as lacunas entre eles, já que o novo título da série, V3, é uma “nova história” e não terá nenhuma relação evidente com o enredo anterior ou os personagens já conhecidos. Embora soasse interessante para alguns fãs dos jogos, também criava um certo receio em outros por tentar explicar o que não precisava de explicação, já que a mensagem do jogo é maior do que qualquer ponta solta. E esse foi de longe o menor dos problemas em Danganronpa 3.

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Dividido em duas séries transmitidas simultaneamente, Mirai-hen (Arco do Futuro) e Zetsubou-hen (Arco do Desespero), ambas com direção de Seiji Kishi, conhecido por várias adaptações de jogos como da série Persona e Devil Survivor, além da adaptação em anime do primeiro jogo da série Danganronpa, os animes foram apenas supervisionados pelo criador da franquia, Kodaka Kazutaka. O roteiro de Mirai-hen ficou a cargo de Yuichiro Higashide e Kodachi Ukyou, dupla responsável pelo roteiro do anime Gakkou Gurashi, enquanto não há muita informação sobre os roteiristas do Zetsubou-hen, embora provavelmente sejam os mesmos já citados. De qualquer forma, envolvido com a produção do novo jogo, é discutível qual foi o papel do Kodaka em ambos os animes e se ele teve algum envolvimento no desenrolar das séries. Meu palpite (ou talvez meu pensamento positivo) é que foi quase nulo, pois não consigo identificar nenhum dos elementos que me fizeram amar a franquia neles. Agora é a parte que entra todas as spoilers dos jogos e do anime.

BRAAAAAAAAAAAAAINWASH?

Um dos grandes méritos do jogo é nos apresentar a principal vilã da série, Enoshima Junko, como uma personagem extremamente carismática e manipuladora, o que torna (ao menos dentro da lógica do mundo de Danganronpa) tudo que ela fez com o mundo plausível. Ser talentoso naquele mundo não é diferente de alguém com poderes especiais, então se alguém como ela conseguisse corromper os maiores talentos do mundo, além de simbolicamente destruir os símbolos da esperança do mundo, seu eloquente plano de afundar o mundo no desespero teria sucesso . Essa era a representação da personagem nos jogos: alguém que consegue manipular e corromper qualquer pessoa, por mais talentosa que ela fosse. Mas, segundo o anime, ela simplesmente teve sorte de esbarrar em um certo estudante que conhecia técnicas de manipulação de imagens e sons para induzir qualquer pessoa à sentir o que ele quisesse. Isso é, brainwash. Algo que vai totalmente contra a construção da personagem e de todos os conflitos na série. Não há mais peso na corrupção de um personagem para um Ultimate Despair, pois ninguém pode responder por suas ações. Eles são apenas máquinas programadas pela Junko para espalharem o desespero pelo mundo e só precisam ser reprogramadas para voltarem a ser quem eram. É como em uns dos casos do segundo jogo, no qual uma das personagens sofre da “síndrome do desespero” e por isso é a culpada pelos assassinatos… exceto que isso foi apenas um gimmick para disfarçar o que realmente aconteceu com a personagem, o que é revelado no fim do jogo. É um conceito que o próprio jogo já tinha deixado claro que não existia ali, por mais absurdo que aquele mundo fosse.

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Brainwash?

Por mais que esses animes tenham sido produzidos como um agradecimentos aos fãs, a forma como tentaram preservar os personagens e colocá-los como vítimas isentas de qualquer crime vai contrário a tudo mostrado e desenvolvido nos jogos. Brainwash é uma tática barata de explicar tudo que aconteceu, ao mesmo tempo que desconstrói a Junko como uma vilã carismática e a importância do seu papel no evento que levou o mundo àquele estado. Diferente do que vemos no spin-off da série, Ultra Despair Girls, o grupo autoproclamado “Warriors of Hope“, que usa a Junko como um símbolo e mostra o verdadeiro potencial da personagem, o anime descarta todo o propósito da personagem ter uma personalidade tão vibrante e carismática para começo de conversa. E isso também leva a um problema maior ainda no Mirai-hen: o terceiro jogo não faz sentido algum.

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Os roteiristas não jogaram ele?

Descobrimos que o verdadeiro culpado por trás de tudo no terceiro jogo era Tengan Kazuo, o ex-presidente da Kibou Gakuen (Hope’s Peak) e líder da primeira divisão da Mirai Kikan (Future Foundation), com o intuito de persuadir Mitarai Ryota, o responsável pelos vídeos de brainwash usados pela Junko, à usar seu talento como animador e transmitir um vídeo que induzisse todos a um estado de “esperança”, e assim finalmente acabando com aquele mundo violento e tingindo de vermelho pelo desespero. É também revelado que os vídeos que induzem quem os assistem à cometerem suicídio, também usado pela Junko na grande tragédia da Kibou Gakuen, estavam sendo transmitidos pelos monitores espalhados pelas salas e corredores do prédio, e todas as vítimas do terceiro jogo, na verdade, haviam cometido suicídio. Novamente, tudo gira em torno de vídeos e técnicas de manipulação cerebral. E nada faz sentido. Tudo parecia plástico, fácil e desnecessário, como se fosse uma grande desculpa para utilizarem elementos dos jogos de uma forma gratuita. O plano de Tengan é estúpido e desnecessário. O que levou ele a pensar que Mitarai usaria tal vídeo se houvesse MAIS UM JOGO? Não era o bastante presenciar o que aconteceu com o mundo? Talvez seja um ponto discutível, mas é um argumento de roteiro muito fraco e conveniente, ainda mais se compararmos a todos os jogos da franquia. O que vemos aqui é um copycat feito por roteiristas claramente sem talento e capacidade de criar um enredo que faça jus aos jogos, que usa de atalhos estúpidos e que quebram totalmente a lógica do mundo construindo por Kodaka e sua equipe. Não faz sentido, como fã dos jogos, considerar esse filho bastardo.

O que vimos no episódio especial final, Kibou-hen (Arco da Esperança), é a anulação de todos os pontos dramáticos estabelecidos nos jogos, com o retorno de todos da sala 77 (a maioria sem nenhuma alteração visível em seus corpos) e a Kirigiri sendo revivida, que teve uma morte tão patética que era de se esperar. Todo o arco da personagem foi patético, na verdade. Assim como a morte falsa da Asahina mais cedo na série, a dela foi usada apenas como uma forma barata de prender os fãs e criar uma falsa tensão de que mesmo aqueles personagens não estavam seguros… exceto que estavam. É tão estúpido que parece uma paródia dos jogos ao ridicularizar todos os seus padrões e valores, e que diferente deles, não ter coragem de seguir em frente com escolhas ousadas.

Toda morte ou reviravolta sombria nos jogos importa. Porque esse é o propósito deles. Eles precisam importar para que a mensagem principal do jogo seja transmitida ao jogador de forma impactante. Todas as tragédias são essenciais para a construção temática de que há desafios e conflitos que precisam ser superados, que todo problema deve ser encarado, e que se não, que é necessário seguir a vida e não viver de escolhas pré-determinadas. Devemos seguir com esperança e não temer o desespero, como mostrado no primeiro jogo, mas também podemos seguir nosso rumo com uma escolha que simplesmente não penda entre essa dualidade, como dito no segundo.

Mas, sério, muita coisa não faz sentido. E quero literalmente listar pontos sem sentido (e estúpidos) aqui:

  • O arco da irmã do Kuzuryu que claramente sofreu um retcon para que tivesse alguma ligação com o Hinata, e que bizarramente serviu como uma motivação para ele participar do experimento, e não afetou em nada o desenvolvimento do próprio Kozuryu, assim como a Mahiru, amiga da garota envolvida. E no segundo jogo vemos que outras personagens, como a Ibuki, Mikan e Saionji, estavam envolvidas;
  • A Kirigiri morrer porque era o seu NG Code (sua ação proibida) no jogo, quando o Sakakura cortou a própria mão e conseguiu arrancar o bracelete;
  • A Kirigiri passar todo o anime investigando e anotando suas conclusões, para no final não revelar nada aos outros e simplesmente aceitar sua morte;
  • A Kirigiri morrer;
  • A Kirigiri reviver;
  • O Sakakura arrancando o bracelete, quando vemos sua ativação instantânea após alguém quebrar seu NG Code;
  • Tudo envolvendo brainwash;
  • O plano do Tengan;
  • A Nanami “real” como desculpa de utilizarem a personagem novamente;
  • A Nanami ser o “elo” entre seus colegas de sala, claramente forçando a relevância da personagem para que a  implicância clara da sua morte fosse utilizada no brainwash dos mesmos e de alguma forma explicasse a sua aparição no jogo;
  • A Junko já tinha obtido sucesso em todas as suas tentativas de brainwash com o vídeo anterior, entretanto ela insistiu que precisava matar a Nanami e fazer seus colegas presenciarem. Motivos: a Nanami que não devia existir precisava morrer.

Danganronpa 3 é tudo que os jogos não são. É extremamente conveniente, com todas as suas respostas paras os grandes mistérios sendo “vídeos que induzem pessoas a cometerem x ação”, o que tira o peso dramático do arco de todos os personagens do segundo jogo, assim como o da personagem nova, Chisa Yukizone, além de desmistificar a Junko da pior forma possível. A forma como ele trabalha as lacunas entre os jogos é preguiçosa e controversa, criando rumos e motivações que claramente não haviam indícios nos jogos originais. Toda o dilema moral é descartado ao estabelecer que os alunos da sala 77 não são responsáveis por suas ações. No final, tudo pareceu uma grande fanfic mal escrita. E é como devo tomar daqui em diante. Danganronpa 3 foi um experimento fracassado que nunca devia existir e, como fã da série de jogos, precisaria assistir o vídeo do Mitarai para me induzir à aceitar todas as estupidezes dele.

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