Todo mundo ama: One Punch Man

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Dificilmente um anime consegue sair do seu antro de fãs e consumidores casuais e penetrar num grupo social que não possui o costume de se envolver com esse tipo de mídia. Pessoas ao nosso redor que  geralmente comentam partidas de futebol ou algum filme blockbuster do momento – ou seja, nosso ambiente social. Mas é difícil você falar de algum personagem de Dragon Ball e alguém dizer que nunca viu ou não conhece tal personagem. São personagens do imaginário na formação coletiva da infância de um amplo grupo de pessoas. Eles são amados porque são reconhecidos por todo mundo e continuam a existir porque são amados.

Recentemente, tivemos um fenômeno bem similar. Um certo webcomic com traços rudes e infantis, ganhou reconhecimento por seu estilo de humor satírico e seu protagonista carismático. One Punch Man ganhou mais ainda reconhecimento quando foi re-desenhado pela desenhista Yusuke Murata, conhecido por seu trabalho em Eyeshield 21, e seu fervor e entusiasmo em querer fazer aquilo ser seu maior trabalho. As incríveis páginas sequências nascidas desse desejo fizeram o mangá alcançar um nível jamais visto no que refere à cenas de ação em mangás. Nesse processo de escala, surgiu a sua versão adaptada em anime. O estúdio Madhouse e seu grupo de animadores talentosos compartilharam do entusiasmo de Murata e fizeram cenas animadas de forma incrível em cada um dos episódios.  O que começou com um grupo de fãs fervorosos do mangá foi levado ao extremo com o anime. E agora todo mundo ama One Punch Man.

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É impossível não tomar conhecimento da série hoje em dia, pois não se limita apenas a posts de facebook ou a qualquer mídia social. Pessoas adoram falar sobre ele em qualquer lugar, seja no ônibus, metrô, sala de aula ou em mesas de bar. Assim como era inevitável alguém soltar um “já viu Breaking Bad? É sobre esse professor de química…”, agora é impossível não ouvir alguém comentar sobre o Saitama e suas façanhas com seu soco super poderoso. Nosso convívio social agora é afetado por um anime como era noutrora na nossa infância com Pokémon, Digimon, Dragon Ball, etc. Estamos presenciando um fenômeno que há muito tempo não tomava essas proporções. Mas de que forma esse sucesso pode ser categorizado? Seria apenas o humor e o esforço dos animadores em criar algo divertido e chamativo visualmente que conquistou esse grande público?

Primeiramente, é preciso analisar outro fenômeno: histórias em quadrinhos de super-heróis. Vivemos agora, mais do que nunca, uma cultura  que idolatra heróis. O que começou com um fenômeno isolado no seu mercado nicho, tomou proporções inimagináveis dentro de uma nova mídia. O impacto social que um filme nas proporções de um Vingadores tem hoje é fora de qualquer restrição de gênero, classe e idade. Heróis agora fazem parte do nosso dia a dia e é de conhecimento comum quem são heróis antes classe B, como Iron Man e Thor.  Mas personagens icônicos como o Superman e o Batman são idolatrados há décadas e são modelos, tanto pelos poderes que vão bem além das condições físicas de um humano, como pela inteligência e a sagacidade, dentro da nossa cultura de idolatração à seres superiores. Há quem teorizem que esses heróis são como os deuses da mitologia grega foram na forma como buscam representar o melhor do ser humano – além de evocar a imagem de um salvador ao agirem como mártires na sua constante luta em prol da sociedade.  Batman, na nossa concepção do personagem, é invencível, por mais impotente que seja diante de um Superman. Ele ainda é ser super poderoso e o maior detetive de todos porque criamos essa imagem de um personagem fictício que usa apenas do seu conhecimento de artes marciais e sua inteligência para agir como um deus. É por isso que ansiamos por situações em que essa imagem seja colocada em jogo: queremos ver o Batman enfrentar o Superman. Mas acima de tudo, queremos discutir quem ganharia num possível confronto.

Quem nunca escutou um “quem venceria, Goku ou Superman?” numa discussão qualquer? O conceito de ver heróis se confrontando é algo extremamente chamativo na sua possibilidade de criar um espetáculo de demonstração de força e sagacidade, realçando o melhor de cada um deles e aumentando ainda mais as chamas das discussões.  E agora temos o Saitama, um novo concorrente nesse duelo imaginário nascido de discussões por entretenimento. É uma nova peça no tabuleiro que passa por um processo de análise da forma como pode ser jogada e as estratégias a serem usadas para ser derrotada. Situações na qual seus poderes são demonstrados servem como  uma forma de medir seu potencial e também de chegar numa conclusão sobre possíveis fraquezas. E é por meio dessas discussões que o personagem transcende a obra original e entra no imaginário das pessoas. A relação que se estabeleceu da série e seu público vai bem além do que é evidenciado em seus capítulos e episódios e atiça a imaginação deles à criarem novos cenários onde novos desafios são apresentados.

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Além disso, One Punch Man foi acolhido por órfãos de Dragon Ball. O que muita gente esperava ver nas batalhas do Goku em sua nova forma na série Super, foi entregue pelo Saitama e seu soco super poderoso.  Esse sentimento de nostalgia que os fãs queriam ter ao assistir a nova série foi redirecionado à One Punch. Não há como negar que a série revigorou os animes ao conquistar um público bem acima da média e que não são familiares com a mídia, mas ao mesmo tempo parece que só acordou o sentimento  enterrado em muitas pessoas de que animes precisam ser no estilo de Dragon Ball para serem reconhecidos. O que poderia ser um fenômeno novo que criaria uma nova imagem aos animes acaba sendo uma segunda onda de sucesso de outro Dragon Ball. Por mais que One Punch satirize muito ao relativizar situações com inimigos extremamente poderosos que talvez durassem arcos com muita lutas paralelas, arco de treinamento, episódios com cenas recicladas nos quais não acontecem nada, em apenas um golpe do protagonista,  ele ainda acaba se tornando o que tenta parodiar ao enfasar tanto as lutas. Afinal de contas, apenas o Saitama cria esse feito cômico, já que os outros personagens ainda lutam no seu máximo tentando evitar as catástrofes causadas pelo monstro da semana. Só ele é o fator externo aquela realidade Dragon Ball-istica, o que cria um interesse múltiplo pelo humor da série e pelas cenas de ações desproporcionais.

One Punch Man é inegavelmente um ótimo anime.  Ele sabe ser engraçado, empolgante e contrastar bem o seu protagonista com um mundo na qual a sua presença é um absurdo. Mas seu sucesso parece apenas firmar a percepção de animes que se construiu após a popularização de Dragon Ball. Seu impacto social é forte, mas dentro do seu meio, não traz nada que já não tenhamos experimentado antes. É apenas um processo cíclico no qual o público evoca velhos sentimentos ao se debater com o que aparenta ser um conteúdo novo, mas que é revestido por algo já conhecido.

Mas o que realmente importa é: quem venceria, Saitama ou Goku?

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