Nostalgia vende

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Qual a melhor forma de valorizar um produto de entretenimento que a princípio parecia ser comum?  A resposta é: Tempo. O tempo que nos faz esquecer, se distanciar, crescermos e sermos pessoas totalmente diferente, vivendo uma vida que talvez, em retrospecto, não seja tão boa quanto imaginávamos. Consequentemente, somos levados a um período de tempo no qual eramos mais felizes, as coisas eram simples e nosso entretenimento padrão era consideravelmente melhor. Em suma, eramos mais felizes porque nossa infância era  a melhor de todas. Disse assim todas as gerações.

Quanto menos nos lembramos de algo de forma detalhada, e maior forem nossas memórias afetivas, melhor aquilo vai parecer. Essa “camada afetiva” que usamos para entrajar nosso entretimento é o que, no fim das contas, deixa tudo ser melhor do que realmente era. É através dessa ótica nostálgica que observamos e avaliamos tudo que fizeram parte da nossa vida no passado. E adivinha só: Nostalgia vende.

Nos últimos anos,  um argumento que se repetiu muito por aí ao anunciarem um remake de algo foi que “não existe mais criatividade na indústria”, que tudo precisa ser refeito pra um novo público e assim lucrar com ideias antigas. Já fiz um texto explicando como isso não é exatamente algo ruim e outro no qual disserto sobre a nostalgia como algo prejudicial na construção da representação de uma mídia, mas a minha intenção agora é esclarecer o porquê de vivermos numa época em que o antigo tenta ser o novo.

Adivinha só, Arquivo X vai voltar! E Xena! E Twin Peaks! E Três é Demais… E qualquer coisa que quiserem que volte, sem motivo algum, sem expectativa alguma do público, apenas pelo fato de que são séries que vivem no imaginário das pessoas.  A sensação agora é que nada tem um fim propriamente dito, já que basta alguém pensar que seria uma boa ideia retomar de onde havia parado e continuar como se aquilo ainda tivesse seu valor, independente do período de tempo. A Netflix hoje é um serviço poderoso o suficiente para conseguir esse tipo de façanha e o seu objetivo em oferecer e produzir cada vez mais conteúdo é algo que não deve ser subestimado. E ela percebeu que a melhor forma de manter seu público fiel ao conteúdo é trazendo de volta aquilo que sempre fez parte das nossas vidas, que nos transportam para frente da TV mais uma vez em épocas distintas e criam um espaço familiar para nos confortar em uma vida que agora é cheia do desconhecido.

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É claro que para se ter uma tendência no mercado, é preciso ter um público consumidor.  Como já reafirmei em meus outros posts, o público é preguiçoso quando se trata de se envolver com coisas novas. A dúvida ao se deparar com algo novo é algo constante. “Será que vou gostar disso?”, “vejo falarem bem, mas não sei se é pra mim…”, etc. O processo de se acostumar com coisas novas é uma barreira que impede alguns de criarem interesse naquilo que foge do que é reconhecido como gosto pessoal. Mas quando alguém que assistiu Goosebumps (Hora do Arrepio) em sua infância se depara com um filme baseado na série de TV num cinema qualquer, esse receio é totalmente derrubado por memórias afetivas, afirmando que aquilo vai ser bom, que não há um desafio em ser conquistado por aquilo. É dessa certeza que se cria é que nasce um público fiel e uma aposta certa por produtores da indústria. E para termos novos produtos, é preciso reeducar a forma como o público pensa e encara novas experiências.

Essa dependência em criar novas ideias em cima de algo já estabelecido, embora seja uma tática que se aproveita desse receio do público, não é algo exatamente ruim. Recriar conceitos e trazer novas elementos a uma nova geração ainda é uma forma válida de contar histórias antigas. O público sempre se renova e junto dele as franquias que já são consagradas.  Qual o problema em contar o episódio VII de Star Wars? Ou a quinta aventura de Indiana Jones? A função básica de entretenimento é a cerne dessas franquias e isso não se perde com o tempo. Mas inegavelmente é preciso que vejamos o Han Solo ao lado do Chewbacca falando que voltaram no trailer e que sintamos que aquele é o Star Wars que lembramos, e que logo deve ser bom. Aquilo não é só uma revelação de personagens que veremos no filme; é também um holofote que se anuncia para os fãs da série original.

Não é só no ocidente que isso vem  acontecendo, embora. Várias séries animadas consagradas estão passando por um processo de revival, com um apelo puramente nostálgico. Tivemos Sailor Moon Crystal, uma versão mais fiel à obra original, que na sua precariedade orçamental, não causou um segundo boom na popularidade de um dos mahou shoujos mais conhecidos. Dragon Ball Super também tentou seu retorno, fortalecido pelo sucesso dos filmes lançados nos últimos anos, que também sofreu nas mãos de um baixo orçamento. Mas por se tratar de um dos animes mais queridos de todos os tempos, dificilmente seu retorno seria desmerecido, e conseguiu obter um relativo sucesso nessa empreitada. Saint Seiya também teve seu retorno de forma progressiva, com a série Omega e uma animação completamente em CG, e finalmente uma série baseada nos personagens coadjuvantes da série clássica, Soul of Gold. Assim como todos os citados previamente, a animação dessa nova série também foi prejudicada por ser algo barato. Afinal de contas, todas elas foram produzidas pelo mesmo estúdio, quase simultaneamente, ao lado de séries mais consagradas como One Piece e Precure. A Toei Animation é um dos melhores exemplos de que vivemos a mercê dessa nostalgia, ao capitalizar suas franquias através de novas séries que puxem de volta o velho público.

Sua última tentativa de retomar uma série antiga foi com a série de OVAs Digimon Tri, uma continuação da primeira aventura de digiescolhidos, agora na sua adolescência. A série utiliza de vários comebacks para relembramos de momentos clássicos e nos levar de volta à momentos na nossa infância no qual ligar a TV e assistir aquilo era a coisa mais importante da nossa vida. O enredo, que pouca se arrisca em trazer elementos novos nesse primeiro OVA, é revestido de fanservice nostálgico que dificilmente falha em conquistar o seu público antigo.

Anime then and now

Anime then and now.

Teria, então, algum mérito numa série que se aproveita disso para se beneficiar na sua duvidosa qualidade? Existe alguma forma crítica de se analisar algo que se imerge tanto em nostalgia?  É difícil criar uma distinção propriamente dita do que é bom no seu mérito próprio  e do que depende da nossa visão nostálgica, mas saber reconhecer algo apenas por seu valor nostálgico é importante. A forma como encaramos algo que consumimos é o que define nosso gosto crítico e faz com a nossa capacidade de se adaptar ao novo, e deixar de lado o antigo, seja um processo natural.

O fato é que nostalgia não é visto como algo prejudicial na forma em que consumimos nosso entretenimento, ao contrário:  é uma forma de aceitarmos mais facilmente todas as falhas que algo possa ter e focarmos no lado bom, naquilo que nos puxa para o passado e criam uma sensação de que voltamos para um estado de felicidade pura. A supervalorização da nostalgia cria um mercado extremamente lucrativo e preguiçoso, alienando o seu público que se vê acorrentado pelo passado e não evolui como um ser crítico. É preciso sair dessa zona de segurança se quisermos viver um presente no qual o nosso entretenimento seja tão bom quanto queremos que ele seja ao relembrarmos no futuro.

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